Nossa História
2016
Uma trajetória que nasceu dentro do hospital
A história dos Sementinhas Doutores Palhaços começa em 2016, a partir da experiência de Shirlei Moura como capelã hospitalar e de sua vivência com a palhaçaria nesse ambiente. Ao conhecer de perto a rotina hospitalar e perceber os efeitos que a presença artística podia produzir nas relações estabelecidas naquele espaço, surgiu uma inquietação que daria origem ao projeto: era possível construir uma atuação de palhaçaria que fosse contínua, responsável e verdadeiramente integrada à realidade do hospital.
Foi desse encontro entre experiência, arte e propósito que nasceu os Sementinhas Doutores Palhaços. Desde o início, a proposta esteve distante de uma visita recreativa ou de uma ação pontual. A intenção era estabelecer uma presença artística permanente, capaz de entrar no ambiente hospitalar com respeito à sua dinâmica, reconhecer a singularidade de cada pessoa e criar possibilidades de encontro em meio à rotina marcada por procedimentos, diagnósticos, espera e incertezas. A palhaçaria tornou-se a linguagem escolhida para estabelecer essa aproximação; o hospital, o território onde essa arte encontraria diferentes histórias, pessoas e possibilidades de conexão.
Quando uma iniciativa se transforma em compromisso
Os primeiros anos foram dedicados à construção dessa presença. Em 2016, o grupo estruturou intervenções regulares no Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia, organizou um calendário anual de ações temáticas e iniciou processos de formação para os voluntários. A continuidade passou a ser parte essencial do projeto, porque entendemos que o vínculo não se estabelece a partir de uma única visita, mas da possibilidade de estar presente de maneira consistente e responsável.
Essa escolha foi determinante para o desenvolvimento dos Sementinhas Doutores Palhaços. A cada semana, o grupo conhecia melhor os diferentes setores do hospital, aprendia a reconhecer seus ritmos e particularidades e aprofundava a compreensão sobre o papel da palhaçaria naquele contexto. As intervenções alcançaram enfermarias, pronto-socorro, pediatria, saúde mental, recepções e outros espaços de circulação, fazendo com que a arte passasse a integrar, de forma recorrente, a experiência de quem vivenciava o ambiente hospitalar.
Ao mesmo tempo em que a atuação se consolidava, começamos a compreender que a humanização não se restringia ao momento da intervenção. Ela também estava presente na forma como o ambiente era ocupado, nas relações estabelecidas e nas necessidades que surgiam a partir da convivência cotidiana com pacientes, famílias e profissionais.
A arte passou a ocupar outros espaços do cuidado
Essa compreensão ampliou naturalmente a atuação dos Sementinhas Drs. Palhaços.
Em 2018, mobilizamos artistas urbanos para revitalizar o pátio da Saúde Mental do HC-UFU, reunimos profissionais voluntários em uma ação dedicada à autoestima dos pacientes, além disso, mobilizamos a comunidade para arrecadar recursos que possibilitaram a instalação de oito televisões na pediatria.
2018
2019
Transformação
Em 2019, o trabalho avançou para a transformação do ambulatório de pediatria, para a realização de festas mensais de aniversário destinadas a crianças em situação de vulnerabilidade e para novas iniciativas de integração entre cultura, educação e saúde.
Essas experiências ajudaram a ampliar nossa compreensão sobre o próprio propósito do projeto. A palhaçaria continuava sendo nossa principal linguagem, mas o trabalho se fortalecia também pela capacidade de mobilizar pessoas, conectar diferentes conhecimentos e transformar demandas percebidas no território em ações concretas. A história passou, então, a ser construída não apenas pelos encontros dos Doutores Palhaços, mas também pelas redes de colaboração formadas ao redor deles.
A formação tornou-se parte da nossa identidade
Ao longo dessa construção, um princípio tornou-se cada vez mais evidente: atuar em um hospital exige preparo.
A experiência acumulada mostrou que a palhaçaria hospitalar não poderia ser tratada como uma simples extensão da prática artística realizada em outros espaços. O voluntário precisa compreender o ambiente em que está inserido, conhecer seus protocolos, desenvolver uma comunicação adequada, reconhecer limites, trabalhar em equipe e compreender que cada encontro envolve uma pessoa em uma condição particular.
Por isso, a formação deixou de ser apenas uma etapa de ingresso e passou a constituir um dos pilares da identidade dos Sementinhas Drs. Palhaços. Desde 2016, foram realizados cursos, capacitações internas, treinamentos com profissionais externos e processos seletivos estruturados. Ao longo do período consolidado, foram registrados 540 treinamentos e capacitações internas para voluntários, 26 treinamentos com professores externos e 9 processos seletivos.
Essa trajetória de qualificação fundamenta o modelo de formação que temos hoje, com 100 horas de preparação certificada, reunindo conhecimentos de palhaçaria hospitalar, humanização, comunicação, ética, biossegurança e relacionamento interpessoal, além de atividades práticas e formação continuada. Para nós, formar um voluntário não significa apenas ensinar uma técnica artística; significa prepará-lo para entrar em um ambiente complexo com presença, consciência e responsabilidade.
Formação
2020
Quando a realidade mudou, o propósito precisou encontrar novos caminhos
A pandemia da COVID-19 representou uma ruptura profunda na rotina hospitalar. A presença dos voluntários precisou ser reduzida, as intervenções foram reorganizadas e novos protocolos de segurança passaram a determinar a forma de atuação. Mantivemos as ações possíveis dentro das exigências sanitárias, com exames frequentes, equipamentos de proteção e adequações metodológicas que permitissem preservar tanto o compromisso com o hospital quanto a segurança das pessoas envolvidas.
Ao mesmo tempo, a crise evidenciou necessidades que ultrapassavam o ambiente hospitalar. Em 2020 e 2021, ampliamos nossa frente social e participamos da distribuição de mais de 1.500 cestas básicas para famílias em situação de vulnerabilidade, além de realizar visitas domiciliares pontuais e ações de conscientização.
Foi um período que marcou profundamente a trajetória porque nos obrigou a rever a forma de estar presentes sem abandonar o compromisso que sustentava o trabalho desde o início. Quando a presença física precisou ser limitada, a mobilização permaneceu; quando a rotina mudou, a capacidade de adaptação tornou-se parte da nossa atuação.
Uma década de construção, aprendizagem e permanência
Com a retomada das atividades presenciais a partir de 2022, os Sementinhas Drs. Palhaços entrou em uma nova etapa de amadurecimento. Reorganizamos escalas, fortalecemos processos internos e retomamos gradualmente a regularidade das intervenções. Nos anos seguintes, ampliamos as ações temáticas, aprofundamos os investimentos em formação e fortalecemos a participação em espaços de articulação e diálogo com outras organizações e instituições.
Em 2023, fortalecemos ações de mobilização comunitária e ampliamos nossa presença em espaços como o Uberlândia Summit. Em 2024, seguimos consolidando as visitas e desenvolvendo ações culturais e solidárias, como as atividades de Páscoa, Dia das Crianças, participação no Grupo de Apoio Lúdico e o Game Solidário. Em 2025, fortalecemos a visibilidade institucional e avançamos em processos seletivos com critérios voltados à inclusão e à diversidade.
O crescimento, portanto, não aconteceu apenas em quantidade de ações. Ao longo desses anos, também amadureceram nossa metodologia, nossa formação, nossa capacidade de mobilização e a compreensão sobre o lugar que ocupamos na interface entre arte, voluntariado e humanização hospitalar.
2022
2025
O que essa história construiu
Entre 2016 e 2025, essa trajetória acumulou 1.104 plantões hospitalares, 90 ações temáticas e apresentações, 46 intervenções em outras entidades e 80 ações empresariais, além de centenas de processos internos de formação, gestão e alinhamento. Nesse período, o levantamento institucional registrou 436.080 pessoas impactadas diretamente, considerando pacientes, acompanhantes e profissionais da saúde.
Os números ajudam a dimensionar a permanência, mas não explicam sozinhos o que foi construído. Eles representam anos de presença dentro do hospital, relações desenvolvidas com diferentes equipes, voluntários que passaram pelo projeto, pessoas que foram formadas e uma rede de parceiros que se mobilizou para que a atuação pudesse continuar.
Também representam uma compreensão que foi se fortalecendo ao longo do caminho: humanizar não significa apenas proporcionar um momento de alegria, significa reconhecer a pessoa em sua integralidade, respeitar sua história e criar, dentro das possibilidades de cada encontro, uma experiência diferente daquela determinada exclusivamente pelo diagnóstico ou pelo tratamento.
Da história dos Sementinhas Drs. Palhaços a um novo capítulo institucional
Depois de anos de construção, a trajetória dos Sementinhas Drs. Palhaços chegou a um momento em que a continuidade e a expansão do trabalho passaram a exigir uma estrutura institucional mais ampla. A necessidade de fortalecer a gestão, ampliar possibilidades de parceria, organizar novas frentes de atuação e criar condições para a sustentabilidade do projeto deu origem a um novo capítulo dessa história.
É nesse contexto que se consolida a OSC SeAmar, criada para fortalecer institucionalmente esse propósito e ampliar as possibilidades de impacto social construídas ao longo dos anos.
A SeAmar nasce, portanto, sem romper com a história que a antecede. Ao contrário: ela parte de uma experiência construída dentro do hospital, de uma metodologia desenvolvida ao longo do tempo, de uma rede de voluntários e parceiros e de uma convicção que permanece desde 2016, a de que a arte pode ocupar o ambiente hospitalar de maneira séria, responsável e profundamente humana.
Hoje, a história segue em construção. O que começou em 2016 transformou-se em uma trajetória de presença, formação, mobilização e aprendizado contínuo. E o próximo capítulo parte exatamente daquilo que nos trouxe até aqui: proporcionar alívio e humanização em ambientes hospitalares por meio da palhaçaria.